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PREFÁCIO DO LIVRO: MEDICINA CHINESA VIVA AUTOR DO LIVRO: DONATI CALERI



A Medicina Chinesa está viva. Não é matéria fóssil. Está viva e, à vista de todos, anda nua por aí. Nem mesmo a sua pele esconde segredos. Translúcida, deixa ver os seus órgãos, as vísceras, os fluxos, os padrões e leis que fazem dela uma sábia e generosa senhora. Já lá vai o tempo em que ela pairava pelo mundo como um velado espírito de sabedoria e de engenho ancestral. Agora ela está nua e se mostra toda.

Esta afirmação vem de evidências. Nas últimas décadas, os surpreendentes avanços tecnológicos fazem dos meios de comunicação a superpotente máquina globalizante que, entre outros importantes efeitos, possibilita a democratização dos saberes. Está tudo escancarado ao olhar do curioso, do compenetrado pesquisador e dos doutores especialistas em qualquer domínio. É mesmo um facto que, a partir de uma cadeira e bastando sumárias noçõe de informática, a navegação em rede faz com que, aquilo que já foi privilégio de uns poucos iniciados, seja agora acessível a todos.

No Brasil, houve um período, e nem faz tanto tempo assim, em que, na fascinante atmosfera da clandestinidade, alguns práticos de procedência oriental cuidavam dos seus clientes, difundindo recursos terapêuticos da Medicina Tradicional Chinesa (MTC). Lenta mas progressivamente, cresceu o número de simpatizantes e usuários do Tai Chi, do Shiatsu e da Acupunctura; entre outros não tão facilmente identificados pelo público em geral. Depois, respondendo ao interesse que se foi gerando em torno do assunto, surgiram as primeiras publicações, seminários, congressos e cursos ministrados por profissionais com formação especializada na área da saúde. Pontes com a ciência médica estabeleceram-se e, oportunamente, a engenharia electrónica contribuiu para a produção de uma aparatologia que possibilitou aplicações mais sofisticadas aos profissionais atentos às necessidades da clientela cada vez mais exigente e numerosa. Sob o ponto de vista mercadológico, a exploração da MTC se revelou apetecível e, sem encontrar expressivas resistências por parte das autoridades que regulam as práticas médicas, foi amplamente disseminada entre os consumidores. Como ainda hoje o é, as políticas de regulação profissional deixavam a desejar. Mesmo assim, a MTC conquistou lugar em unidades hospitalares e postos de serviços públicos de saúde. A multiplicação das ofertas no âmbito da formação profissional resultou na ampliação do interesse pela actividade. Escolas superiores de Medicina Tradicional Chinesa se estruturam, oferecendo cursos de longa duração, formando médicos e não médicos, presumivelmente bem preparados para o exercício desta agora promissora e bem prestigiada actividade profissional.

Para a MTC, acolhida e bem ajustada à mecânica globalizada do neo-liberalismo consumista, o panorama é vasto e muito auspicioso. Muito de tudo que pode dar lucro tem sido feito. O que ainda falta fazer de modo sistemático e abrangente são reflexões críticas a cerca da sua dinâmica social Falta a reflexão séria sobre certas posições, tanto as conceptuais quanto as protocolares, que perfazem as dobras deste milenar conhecimento. Em não sendo, até parece que se trata de alguma doutrina fechada em verdades definitivas, inquestionáveis. Tem faltado audácia para questionar estruturas e assumir posicionamentos que actualizem a matéria.

Seguindo o que a Física contemporânea propõe, dizendo que estamos no campo das tendências e das probabilidades, Donati Caleri com o seu livro MEDICINA CHINESA VIVA levanta questões sobre as quais quase nada se tem produzido. Rompe com o modo usual de abordar o tema, desafiando o leitor a se colocar de frente para com algumas verdades e certezas já cristalizadas, inorgânicas. Este seu livro acentua aquilo que a Medicina Chinesa apresenta o que ela tem de mais rico; que é pensar o humano inseparável de mundo sempre em transição para o não nascido. A partir da ideia de vitalismo, princípio fundamental em MTC, o autor dá especial ênfase aos processos de transformação e a capacidade que cada corpo tem e que chamamos de função de auto-reguladora; potencialidade natural que o impele à encontrar linhas de fuga que aumentem a sua capacidade de acção.

Contando com uma longa e rica experiência adquirida como acupunctor, director fundador e, principalmente, como formador da Associação Sino-Brasileira de Acupuntua Moxabustão e Terapias Holísticas (ASBAMTHO), Donati Caleri nos oferece os conteúdos deste livro, apresentando um texto que se agencia também com autores e filósofos contemporâneos. Com muita propriedade e clareza o seu texto defende a afirmação de que esse conhecimento é atemporal, universal, que está vivo e não exclusivo desse ou daquele domínio do saber. A sensibilidade e o pragmatismo adquiridos com a sua perspicácia e com o seu trabalho de campo, ele tece considerações sobre alguns procedimentos que se conservam calcinados desde há milénios e apresenta uma selecção de pontos acupuncturais que não só aparecem descritos nos manuais clássicos mas porque, ao longo de muitos anos de observação criteriosa, foram aplicados, avaliados e comprovados em eficácia pela objectividade da vivência clínica do autor e de outros que com ele partilharam experiências pessoais igualmente significativas.

Os conteúdos deste livro nos leva a observar como os processos de transformações são produzidos em todos os fenómenos; inclusive na própria Medicina Chinesa. Quem nela põe atenção vê, sente e percebe onde e como ajustamentos se impõem. O que importa na Medicina Chinesa é a sua arte e singularidade e não a representação que se faz dela. Posicionamento que robustece a ideia da diferença quando afirma que a diferença se dá a cada momento, embaralhando os códigos, afirmando apenas as possibilidades abertas pelo vir a ser.

Jorge Ponce


“Não creiais na fé das tradições, quaisquer que sejam seus méritos e honrarias, através de muitas gerações e muitos lugares; não creiais numa só coisa porque muitos creem nela; não creiais sob a fé dos sábios do passado; não creiais no que imaginais pensando que um deus vos inspirou; não creiais em nada sob a única autoridade de vossos mestres e sacerdotes. Após exame, credes no que vós mesmos experimentardes e reconhecerdes como razoável” (Bhuda).

Ao longo da minha experiência profissional no território da medicina chinesa, e especialmente com a acupuntura, fui levado a reflexões e inquietações sobre esse milenar conhecimento. O presente trabalho é fruto dessas reflexões e, principalmente, das inquietações que, em muitos momentos, criam uma visão da acupuntura distanciada da sua dinâmica produtiva. Entendo que a leitura que estou fazendo, em momento algum se desprende dos conceitos tradicionais da medicina chinesa. Minha observação pretende realçar alguns aspectos da acupuntura que tendem a ser negligenciados no contemporâneo. Em muitos casos, parece que estamos diante de verdadeiros “saltos” entre as múltiplas causas que orientam as manifestações do ser, e as manifestações em si. São hiatos nebulosos que dificultam sobremaneira a compreensão da produção orgânica, ou seja, entre os estímulos e as possíveis manifestações promovidas pelo organismo. Qual ou quais os processos, vistos pela lógica da medicina chinesa, que engendram certas expressões do humano nos verbos da vida? Como se dá a relação dos estímulos produzidos pela acupuntura nas transformações orgânicas? Essas são algumas questões aqui apresentadas, assim como, a articulação da acupuntura e da medicina chinesa com uma linha de pensamento e pensadores, clássicos e contemporâneos. Isso se desenvolve na via da imanência, ou seja, nos processos de produção de mundo compreendidos no seu auto engendramento onde causa e efeito não se separam, onde inexiste uma instância superior, fora. Na imanência, coisas e mundo se constroem constantemente a partir dos seus próprios processos de transformação, sem instâncias externas, alheias, superiores. São sempre criações singulares que orientam esse entendimento. Estimular o pensamento a criar outros arranjos possíveis sobre os conceitos da medicina chinesa. Essa é uma das propostas desse trabalho. Dizer isso significa também distanciar-nos de dogmatismos, reproduções de supostas verdades, de representações dos simulacros. O intuito é de afirmar a acupuntura como um conhecimento vivo, dinâmico e, portanto, mutável a cada momento como a própria vida. Uma visão sobre esse universo que possa ser pensada e representada através de termos, frases e citações, a nosso ver, mais condizentes com essa realidade dinâmica. Palavras, termos e combinações que se ajustem aos espaços onde a medicina chinesa está sendo veiculada, ou seja, pensá-la não a partir da sua representação mais conhecida, até porque entendemos que essa pode, com facilidade, se constituir numa cópia do falso. Queremos seguir o desafio colocado pela própria medicina chinesa, quando afirma a impermanência de utilizarmos seus conceitos para apreender mundo e humano nos seus processos vitais e inseparáveis de produção. Tomar a medicina chinesa como dispositivo de análise para compreender os fenômenos, mais próximos do seu acontecimento. Utilizá-la, na sua riqueza, para criarmos novos arranjos, ajustá-los aos espaços, sem contudo, em momento algum, descaracterizar seus princípios fundamentais, suas premissas constitutivas. Discutir a lógica da produção orgânica nos modos de vida, nos processos do viver. Constatar que as manifestações do ser, denominadas sintomas ou doenças, fazem parte de uma dinâmica de intensificações ou lentificações de fluxos, um jogo de linhas de forças, uma relação de alternância inseparável entre aspectos mais yin e mais yang, constitutivos de mundo e humano. Pensar saúde/doença não como entidades distintas que clamam por exclusão, mas como expressões do ser, que sugerem estados impermanentes do humano. Estamos propondo então, com ousadia, uma imersão nos meandros do humano, inseparável do mundo, tendo como guia, como manual de orientação, os princípios básicos do taoísmo, ou seja, o vazio pleno, a inseparabilidade, a impermanência e a insubstancialidade dos fenômenos. Perceber, através da dinâmica do yin e do yang, e de todos os seus infinitos desdobramentos, o que orientou o povo chinês nessas descobertas, e nos desafiar a atualizar esse caminho, desvendá-lo para poder seguir caminhando, construindo outros caminhos. E ainda, que possamos pensar sobre as descobertas da acupuntura e perceber que essas, amplas e ricas, seguem uma lógica de produção orgânica acessível a todos, articuladas com outra forma de pensar e compreender o mundo, que não a oficial e hegemônica.

“E ainda aí nos cabe redescobrir uma forma de ser do ser, antes, depois, aqui e em toda parte, sem ser, entretanto idêntico a si mesmo; um ser processual, polifônico, singularizável, de texturas infinitamente complexificáveis, ao sabor das velocidades infinitas que animam suas composições virtuais” (Deleuze).

Ou seja, tentar penetrar no campo da imanência da medicina chinesa, naquele espaço liso, indeterminado onde só existem fluxos; o espaço pré-formal do vazio pleno, onde latentes estão as formas. E nesse espaço, acompanhar os processos de produção, afirmando aquilo que é por natureza, percebendo que os seus conceitos são a tentativa de falar disso, que é por natureza e que, a rigor, independem de conceitos, explicações, pois é pura produção, puro ato de criação sem criador. A intenção do presente texto se distancia em muito da ideia da construção de um manual sobre a prática da medicina chinesa, ou mesmo da acupuntura, embora na segunda parte seja apresentada, como fruto da nossa experiência “impessoal”, uma abordagem sobre como entendemos a função de alguns pontos, a lógica que torna possível a combinação desses em procedimentos de facilitação da potência de vida. Portanto, a sequência dos capítulos não será orientada de forma a abordar os temas referentes à teoria e a prática da acupuntura numa relação: começo/ meio/ fim. Selecionamos os temas que pareceram mais relevantes, e com os quais desenvolvemos maior proximidade, e esperamos que a forma como estão sendo abordados possa servir de dispositivo de análise para se pensar a medicina chinesa mesmo naqueles temas que não estão aqui diretamente contemplados. Esperamos de fato conseguir compartilhar as descobertas, e principalmente as dúvidas, saudáveis e inesgotáveis, sobre esse milenar e ao mesmo tempo contemporâneo campo do saber.

CHINA, GRÉCIA E O ZEITGEIST


“tudo o que eu posso te dizer, é que nós somos fluidos, seres luminosos feitos de fibras” (Deleuze e Guattari, 1997).

Uma palavra que traduz, de forma precisa, o que pretendemos dizer, é Zeitegeist, e que pode ser traduzida ou compreendida como o “espírito intelectual de uma época”. É um conjunto de condições que propicia o surgimento de uma teoria, ideia ou proposta, num determinado momento. No período que compreende os últimos 400 anos anteriores à nossa era ocorriam, tanto no oriente como no ocidente, mudanças expressivas na organização do pensamento que se desdobravam na construção de mundo. Tanto na China como na Grécia, para nos atermos a essas duas culturas, vamos encontrar um Zeitegeist que propiciava a construção de um tipo de pensamento que apresentam distinções e similaridades. Essa comparação proposta tem o intuito de, entre outras coisas, evidenciar o caráter universal do conhecimento, colocando-o como verdadeiro patrimônio da humanidade. Afirmando que por mais que estejamos falando sobre medicina chinesa e acupuntura, essas não se construíram sozinhas, mas sim, através de vários atravessamentos, e mais ainda, que seguem nessa via de construção, ou seja, se compondo através de articulações com outros saberes. Pensamos que é possível falar de medicina chinesa, ou seja, da sua lógica de produção, sem necessariamente utilizarmos termos próprios e específicos. O pensamento que enseja os termos, a lógica que os constrói é o que mais nos interessa. Na Grécia pré-socrática, o conceito de “Nous”, criado pelo filósofo Anaxágoras, por volta de 440 anos a.C, tem o sentido de princípio ordenador do universo, inteligência ou espírito universal, o fluido cósmico em ação por toda parte que confere à matéria um movimento giratório, do centro para a periferia, e anima tudo quanto vive. Este princípio, poderíamos dizer, encontra ressonância na filosofia chinesa, em parte, na concepção de Shen, entendido como o princípio inteligente e organizador universal, e em parte, no de Qi, o sopro vital, responsável por animar, dar vida e movimento a tudo o que existe. Diógenes de Apolônia, outro filósofo grego, diz que o ar é o princípio universal do cosmos, cuja coesão assegura “o sopro vital presente no indivíduo, como a fonte unificadora de suas funções fisiológicas e psíquicas”. (apud. Lucien Mueller 1976). Nesse período, na China, está sendo afirmada a ideia de Qi, como sopro vital, sendo utilizado, em ambos os lugares, as mesmas palavras e o mesmo sentido de substância vinculante.
O mesmo filósofo grego, nessa passagem, ainda nos fala do que poderíamos considerar atualmente como sendo a singularidade:

“há sempre entre as coisas um elemento diferencial, por menor que seja, e sua semelhança jamais constitui identidade perfeita, não é possível às coisas... serem exatamente iguais umas às outras, até o ponto de se tornarem, uma vez mais, a mesma coisa” (apud. Lucien Mueller, 1976).

É a afirmação da singularidade, apresentada inclusive pela física quântica que desconstrói o caráter de seres exatamente iguais, afirmando a visão de Heráclito, que veremos a seguir, que se refere à diferença não somente entre os seres, mas sim, e principalmente, a diferença no próprio ser, a cada momento.

“O outramento não é dicotômico ou binário, mas plural, mutante, antropofágico. Não se refere ao meu direito de ser diferente do outro ou o do outro de ser diferente de mim, preservando em todo caso entre nós uma oposição, nem mesmo se trata de uma relação de apaziguada coexistência entre nós, em cada um está preso à sua identidade feito um cachorro ao poste. Trata-se do direito de diferir de si mesmo, de se descolar de si, desprender-se da identidade própria e construir sua deriva ao acaso dos encontros e das hibridações que a multidão nos propicia” (Pelbart, 2003).

A visão de Heráclito e Parmênides constitui, de certa forma, os dois polos entre os quais o pensamento ocidental oscilará constantemente. Para Heráclito, a mobilidade, inscrita no próprio coração do universo, enseja incessantemente a multiplicidade de suas formas, admitindo a existência de um processo de contração e de dilatação do universo. A doutrina de Parmênides pode ser vista como a primeira reivindicação radical do pensamento racional. Segundo ele, uma coisa é ou não é. O primeiro afirma o devir, o não ser; o segundo afirma o momento, o ser. Heráclito identifica, tragicamente, um mundo onde nada está em repouso. Nesse mesmo momento, na China, o princípio da impermanência é norteador do universo e de tudo que o habita. Ainda Heráclito, com a máxima: “não podes descer duas vezes no mesmo rio, pois novas águas correm sempre sobre ti. Descemos e não descemos nos mesmos rios, somos e não somos” (Heráclito, in: Chauí, 1994), está construindo seu pensamento com base na mutação, na impermanência e na singularidade. Protágoras, discípulo deste, tem uma percepção que, uma vez mais antecede a ciência contemporânea.

“os indivíduos colocados, embora da mesma maneira, diante de um objeto, percebem-no diferentemente por motivo da estrutura particular deles, mas que o mesmo homem, colocado diante de um objeto que tenha percebido anteriormente, ter, desse objeto, outra impressão, pois o próprio homem mudou” (apud. Lucien Mueller, Platão, Crátilo,).

Este tipo de concepção do universo, e dos seus fenômenos, vem afirmar a visão da singularidade e da impermanência, próprias de uma visão de mundo grega (pré-socrática) e chinesa. O filósofo Heráclito, pré-socrático, nascido em Éfeso em 540 a.C, tem ideias e conceitos que em muito se aproximam da visão mais pura do taoísmo e da medicina chinesa.

“O povo julga, por certo, conhecer algo fixo, pronto, permanente; na verdade, há em cada instante luz e escuro, amargo e doce lado a lado e presos um a ao outro, como dois contendores dos quais ora um ora outro tem a supremacia” (Os Pensadores, 1978 Heráclito).

Outra reflexão significativa, com fortes pontos de contato com a medicina chinesa clássica, é a que faz Heráclito quando diz:

“O fogo e a água não podem equilibrar-se por muito tempo numa alma e, quando um dos dois elementos aí adquire demasiada predominância, a morte sobrevirá” (Heráclito, in: Chauí, 2002).

Temos aí a clara correspondência entre duas linhas de força, sendo utilizados na Grécia termos como fogo/água e na China, a terminologia utilizada seria o yang/yin.

“Para esse mesmo pensador a “guerra é a comunidade”, isto é, a guerra é o que põe as coisas juntas para formar um mundo em comum, e, portanto, a luta dos contrários é harmonia e justiça” (Chauí, 2002).

Heráclito nos fala de um mundo que é puro devir, ou se quisermos, a pura impermanência, o constante vir a ser. Para ele, o que existe nesse sentido é, portanto, o vir a ser, processos de singularizações. Movimentos, mudanças. Não existem entidades fixas, separadas, isoladas. É sempre um vir a ser, um processo contínuo de transformação e alternância.

“Em outras palavras, não percebem que a multiplicidade é unidade e a unidade, multiplicidade, pois cada contrário nasce do seu contrário, isto é, são inseparáveis. A noite traz dentro de si o dia e este traz dentro de si a noite; o frio traz dentro de si o quente e o quente traz dentro de si o frio; a necessidade traz dentro de si o acaso e o acaso traz dentro de si a necessidade; a saúde traz dentro de si a doença e a doença traz dentro de si a saúde; a beleza traz dentro de si a feiúra e a feiúra traz dentro de si a beleza; a vida traz dentro de si a morte e a morte traz dentro de si a vida. O um é múltiplo e o múltiplo é um” (Chauí, 2002).

Se disséssemos que a citação acima foi criada por algum mestre taoísta não soaria estranho. Então, vamos percebendo que os agenciamentos surgem entre filósofos e sábios, conceitos e princípios, que fazem com que possamos pensar numa medicina chinesa como um produto inacabado, em constante movimento de atualização e agenciamentos.

“As próprias coisas, em cuja firmeza e permanência acredita a estreita cabeça humana e animal, não têm propriamente nenhuma existência, são o lampejo e a faísca de espadas desembainhadas, são o brilho da vitória, na luta das qualidades opostas” (Os Pensadores, 1978, Nietzsche).

A SABEDORIA DE HIPÓCRATES


Com o seu nome gravado na origem da medicina ocidental ou das práticas de cura, Hipócrates dá grande importância à relação do homem com o meio, construindo ainda nos seus fundamentos, uma visão completamente atual e uma vez mais coadunada com a da medicina chinesa. Isso se faz presente no reconhecimento da existência do que veio a ser chamado de “princípio vital”, como força latente na natureza e no humano. Esse princípio vital deve ser considerado e estimulado nos processos de cura, ou seja, a terapia visa promover estímulos que despertem e fortaleçam a energia vital do ser humano, que, em última instância, é a força vital da natureza. Hipócrates traz uma visão ampla e minuciosa de uma forma de avaliação que em muito se assemelha ao diagnóstico realizado pela medicina chinesa. Suas concepções sinalizam ainda para uma ordem universal, quando diz que:

“o que tem primazia e orienta o comportamento médico é a fé numa ordem universal benfazeja, o senso das limitações humanas. O médico nada deve empreender temerariamente. Preferirá abster-se em certos casos a causar prejuízos”. (apud. Lucien Mueller, 1976).

Essas referências ao pensamento grego, articuladas à medicina chinesa e ao taoísmo, que poderiam prosseguir com inúmeros exemplos, têm por finalidade sinalizar para o espírito intelectual daquela época. Hoje vivemos outros tempos; o céu e a terra são e não são os mesmos, as vibrações assumem contornos próprios, a teia da vida está em constante transformação produzindo outras formas de estar no mundo. A prática e o ensino da acupuntura sugerem este tipo de reflexão: a sensível apreensão do nosso Zeitegeist. A atualização da medicina chinesa e formas de representação dessa medicina mais coadunadas com o contemporâneo. Percebendo que este exemplo da filosofia grega serve para nos libertar dos exclusivismos e facilita a compreensão da medicina chinesa, no seu processo de construção “ad infinitum”, articulada, implícita ou explicitamente, com outros saberes e pensadores.

AQUILO QUE É POR NATUREZA


“Somos compostos de linhas variáveis a cada instante, diferentemente combináveis, blocos de linhas, longitudes e latitudes, trópicos, meridianos, etc” (Deleuze).

Podemos apostar que a medicina chinesa se constitui num eficaz dispositivo de análise para pensarmos sobre os processos de produção orgânica. Como o corpo se auto-engendra? Qual a sua lógica de produção? O que pode um corpo? Quais são seus limites? Podemos tomar como desafio, a partir da lógica que orienta a medicina chinesa, o homem e a natureza, na sua inseparabilidade, como uma produção constante, independentemente de adjetivos, terminologia específica ou representação. Essa produção antecede a sua representação. O que existe por natureza, em ato, é a produção, ao passo que a representação, múltipla e variada, sobre o mesmo acontecimento, é secundária de tal forma que poderíamos até prescindir dela sem alterar em nada o acontecimento. O que existe, existe em ato. O acontecimento que precede a explicação é o que mais nos interessa. Aqui estamos diante de uma clássica discussão, daquilo que é por natureza e daquilo que é por convenção. De ficarmos fixados no dedo que aponta para a lua e de não olharmos, efetivamente para a lua. Do acontecimento, que é sempre único, e da representação, que é sempre variada, em função de inúmeras injunções. Nesse sentido, podemos então utilizar outros termos, para expressar a ideia sobre o acontecimento, numa visão construtivista ou mesmo uma pedagogia contemporânea que facilite a compreensão daquilo que a medicina chinesa se esforça em nos mostrar, qual seja, uma lógica de produção orgânica inseparável do mundo. Poderíamos até mesmo falar todo o tempo dessa lógica sem a necessidade de utilizarmos os termos próprios da medicina chinesa, como mencionamos anteriormente, caso entendamos que isso facilitaria a compreensão e assimilação dos processos em si. O que importa não é se isso ou aquilo é medicina oriental, medicina ocidental ou qualquer sistematização possível, mas sim, a apreensão direta da coisa, do processo, do acontecimento. A representação que fazemos disso, por mais que nos esforcemos, será sempre algo diferente da integralidade daquilo que é por natureza. Portanto, se estamos no difícil campo de representações da natureza, que possamos construí-las das formas mais precisas, simples e abrangentes, àquelas que nos convençam que possamos pensar sobre elas e nos sentir identificados com essa ou aquela forma de representar a natureza, independentemente das tradições, das ficções, das fixações. Mais ainda, cientes de que será sempre uma representação, uma tentativa de dizer do indizível, de reduzir a grandeza do acontecimento ao jogo das palavras. Nesse sentido, a medicina chinesa é somente um sinalizador desses processos, dispositivo de análise como mencionaram anteriormente. Quanto mais dinâmica, mutável e atualizável, mais viva será a medicina chinesa. Desprender-se da terminologia como tal e aliar-se com o sentido, com a experiência daquilo que acontece, com o corpo produtor, que não necessita de termos, palavras e conceitos para produzir.

ACUPUNTURA E SUAS ALIANÇAS OCIDENTAIS


“Penso até que a subjetivação tem pouco a ver com o sujeito. Trata-se antes de um campo elétrico ou magnético, uma individuação operando por intensidades (tanto baixa como altas), campos individuados e não pessoas ou identidades” (Deleuze).

Pode parecer estranho num texto sobre acupuntura serem utilizados conceitos de filósofos ocidentais como Baruch Espinosa (1632/1677) e Gilles Deleuze (1925/1995). A intenção, no entanto, é sinalizar para a amplitude e principalmente a atualidade dos conceitos da medicina chinesa. E ainda, como esta se encontra agenciada com saberes que, embora utilizem outros códigos de expressão, outras combinações, se atualiza numa visão muito próxima desses filósofos da imanência. Pensamos que são num mesmo sentido, uma mesma lógica que se expressa de diversas maneiras. Deleuze pensa o mundo como uma multiplicidade infinita de fluxos que interagem constantemente, pura intensidade. Quando o ritmo dos fluxos se reduz, produzem materialidade, produzem os “seres lentos” que somos e as dez mil coisas existentes. Isso, seres lentos são a expressão da redução da intensidade dos fluxos. Quando as linhas seguem um ritmo de intensidade mais acelerado, para o modo de existência humano, estamos no campo do invisível, quando estas reduzem o seu ritmo, estamos no campo do visível. Intensidade, para ele, corresponde ao que chamamos de imaterialidade, e a redução da intensidade, propicia a expressão da materialidade, que ele associa a extensão, corpo, agregado mais condensado de partículas. Além disso, para o mesmo autor, a sociedade se constrói muito mais pelo que ele veio a chamar de “linhas de fuga”, pelas linhas por onde ela escapa das cristalizações e aprisionamentos identitários do cotidiano. Será que na acupuntura também não poderíamos pensar nessas “linhas de fuga” deleuzianas como a própria imprevisibilidade do humano? Quando produzimos estímulos com a acupuntura será que somos capazes de prever, na sua plenitude, os resultados que esses produzirão, ou apenas devemos pensar que esses irão auxiliar o organismo a construir suas próprias linhas de fuga, suas transformações? Talvez, a imprevisibilidade, com relação aos resultados produzidos pelos estímulos, seja bem mais certa do que aquilo que temos acesso a concluir. Somos mutantes, imprevisíveis, inapreensíveis, uma combinação constante de movimento e repouso, com certas tendências, mas sem determinação prévia. Podemos pensar também na ideia inicial do I Ching que entende o mundo a partir da interação de linhas mais intensas (yang) ou mais lentas (yin), mais sutis ou mais densas, formando um continuum inseparável e indiscernível de tendências de manifestações. Uma verdadeira teia da vida. Quando, em medicina chinesa, pensamos nos atributos mais yin ou mais yang de qualquer fenômeno, estamos pensando no ritmo do seu movimento. Quanto mais intensivo e imaterial, mais yang é a expressão do fenômeno, e quanto mais lento e material, mais yin é a sua característica mutável. Pensar assim abre um campo de entendimento que apresenta outra maneira de compreender e sentir o yin e o yang, numa via imanente, ou seja, em processos que se constroem todo o tempo, através da capacidade do humano de viver e produzir transformações constantes. O que estamos chamando de imanência é a manifestação em ato da própria experiência que possibilita pensar nos acontecimentos como processos que se constroem a partir do encontro de múltiplas linhas de força, como que brotam sem uma rígida determinação, sem um sistema pronto, mas sim, com tendências, probabilidades que se apresentam na própria produção e em função dos encontros e agenciamentos que são realizados. Na imanência, o caminho não pré-existe, ele se faz no próprio caminhar. É como se fossemos desafiados a olhar para o aqui e agora, para as entranhas da vida, não para o além, nem para modelos ou verdades. Não existe o fora, o fora, na imanência é o lugar que não existe. Estamos propondo um mergulho nos modos de produção do ser, sem manual, com algumas tênues referências para que possamos desvendar, a cada momento, um caminhar singular de auto-regulação. Pensar no ritmo das manifestações é pensar no yin e yang, pensar na imaterialidade e na materialidade, é pensar yin e yang, pensar na intensidade dos fluxos é pensar yin e yang. Pensar yin e yang é pensar medicina chinesa viva, dinâmica, impermanente como tudo. Aspectos rítmicos da natureza, expressões de movimentos que podem ser aplicadas tanto na compreensão (diagnóstico) do humano, quanto nos tratamentos a serem construídos. Nas reduções do ritmo, nas estagnações, nos acúmulos, nódulos, edemas, redução funcional, lentificação dos fluxos que se expressam no cansaço, na depressão, na redução da mobilidade, estamos no campo das manifestações mais yin. Nas intensidades, nas manifestações imateriais do ser, nos humores, nos vapores, nas relações, nas agitações, naquilo que dá movimento, que engendra dinâmica, que facilita as trocas e transformações, estamos mais inclinados aos aspectos mais yang. E aí surge outra interessante e importante questão trazida pela medicina chinesa bem como por esses autores que estamos nos agenciando, qual seja, não pensamos no absoluto. Onde começa aquilo que estamos chamando de mais yin e onde termina aquilo que estamos chamando de mais yang? É sempre mais isso ou mais aquilo, pois tudo, todos os fenômenos, os acontecimentos, se organizam e se expressam a partir de uma combinação heterogênea com tendências momentâneas. Isso parece ser assim na natureza, é próprio do acontecimento, é o ritmo da natureza. Mas isso é inseparável também, indiscernível sua demarcação. Poderíamos dizer que o movimento e o repouso são inerentes aos acontecimentos, e aqui pensamos no humano como acontecimento também. E que repouso e movimento, yin e yang, são termos, representações daquilo que é por natureza. E parece que aquilo que é por natureza é um conjunto indiscernível dessas tendências rítmicas, inseparável, indemarcável. Talvez nosso desafio seja o de compreender isso, apreender o acontecimento de forma direta, ser arrebatado por ele, misturar-se com ele.

A ÉTICA DE ESPINOSA E A MEDICINA CHINESA


“Os doentes, tanto da alma como do corpo, não nos darão descanso, são vampiros, enquanto não nos tiverem comunicado a sua neurose e a sua angústia, a sua querida castração, o ressentimento contra a vida, o seu imundo contágio. Tudo é uma questão de sangue. Não é fácil ser um homem livre: fugir da peste, organizar os encontros, aumentar a potência de agir, afetar-se de alegria, multiplicar os afetos que exprimem ou encerram um máximo de afirmação” (Deleuze).

Para Espinosa, a concepção de ética é, inicialmente, a capacidade de criar bons encontros. Encontros com corpos, no sentido amplo do termo, que componham com a nossa natureza e fortaleçam o que ele chamou de conatus, que é a força singular de perseverar no ser. Então, todos os corpos, visíveis e invisíveis, ao se relacionarem com o nosso corpo, produzem uma afecção, uma alteração no nosso modo de existir. Criam, através dessas afecções, modificações no nosso corpo. E aqui é preciso deixar claro que Espinosa talvez seja o filósofo que, com maior veemência defendeu uma concepção de mente e corpo como unidade inseparável, assim como a medicina chinesa também o faz. Bem, cientes da natureza dos corpos, tanto dos externos quanto da natureza do nosso próprio corpo, somos levados a perceber quais os corpos que, naquele momento, compõem com o nosso e quais os que nos decompõem. No primeiro caso, temos o que foi chamado de um bom encontro, e no segundo, um mau encontro. Ora, tudo nos afeta o tempo todo. Na relação dos corpos – repito – material ou imaterial, existe o que Espinosa chamou de afeto, um corpo afeta o outro no seu modo de agir, e o resultado pode ser de fortalecimento da potência, o que seria um bom encontro, ou a despotencialização da capacidade de agir, configurando-se um mau encontro. É claro que os afetos podem produzir múltiplas modificações no mesmo momento. Modificações que potencializam e outras que despotencializam, pois nosso corpo também são muitos corpos que compõem uma unidade heterogênea, então, as afecções em geral produzem manifestações de composição e decomposição, yin e yang, potencialização e despotencialização no mesmo momento. Não cabe pensar em separações, pureza, absoluto. De qualquer forma podemos identificar uma tendência predominante de potencialização ou despotencialização nos encontros. É isso que conta. O que faz você agir ou o que faz você padecer. O que gera paixões predominantemente alegres ou tristes, nas palavras de Espinosa. Nos bons encontros, a potência de vida se fortalece, o conatus, nas palavras do filósofo, ou a energia vital, nas palavras da medicina chinesa, fica fortalecido. Nos maus encontros, o humano se despotencializa, enfraquece na sua capacidade de agir, reduz o quantum vital, compromete o conatus. Diferentemente da moral, para Espinosa, nada é bom ou mal, certo ou errado, à priori, mas sim, os corpos, num determinado tempo/espaço, podem ser bons ou maus, gerar potência ou enfraquecimento. Quando gera potência, aquele encontro engendra “paixões alegres”. Quando enfraquece, engendra “paixões tristes”. A intenção, portanto, seria o desenvolvimento de um tipo de conhecimento da natureza dos corpos, incluindo o nosso, que possibilitasse a construção predominantemente de bons encontros, que produzissem paixões alegres, e fortalecessem a potência de agir. O que tem isso a ver com acupuntura e a medicina chinesa? Parece que tudo. O encontro com o outro (paciente), no espaço clínico, o tratamento realizado poderá ser visto sob a mesma ótica, assim como os encontros com os alimentos, exercícios e tudo o que fazemos na vida. O campo da medicina chinesa é o único e mesmo onde a vida acontece.

A ACUPUNTURA EM MEIO AO CONTEMPORÂNEO


Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou volume reduzidos... é ao nível de cada tentativa que se avaliam a capacidade de resistência ou, ao contrário, a submissão a um controle. (Deleuze)

A acupuntura é um dos recursos terapêuticos que compõem a medicina tradicional chinesa, e que, no seu conjunto, tem ainda a dietética, fitoterapia, massagens, exercícios energéticos e meditação. Sua estrutura conceitual e sua prática são, e devem ser sustentadas e orientadas pelo seu próprio campo de saber, construído com base na filosofia taoísta. E o que vem a ser considerado como a constituição de um “campo próprio” e autônomo de saber, tomando aqui por base a ideia criada no trabalho desenvolvido no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, é a existência de alguns critérios ou requisitos para tal, ou seja: uma cosmologia própria (taoísmo); o entendimento do corpo quer na sua materialidade quer na sua imaterialidade (anatomia e fisiologia); um critério de avaliação das manifestações do ser, bem como de um modo específico de atuação nos processos de transformação energética (diagnóstico e terapêutica). Todos esses recursos que citamos inicialmente visam, no campo da medicina chinesa, estimular o principio vital, a potência de vida que na sua dinâmica holística busca o bem-estar físico/biomecânico, sensorial/perceptivo, afetivo/emocional, mental/intelectual, social e ambiental. Portanto, quando nos referimos ao campo autônomo ou campo próprio da medicina chinesa, estamos sinalizando para a importância de um entendimento dos aspectos acima citados que compõem esse campo. A prática da acupuntura, dentro dos seus amplos limites de entendimento e ação, não necessita do saber de outra racionalidade médica que não seja a sua, não carece de se agenciar com outra visão de saúde para poder ser compreendida ou utilizada. Ao contrário, quando utilizamos distintos paradigmas, no caso mais comum o da biomedicina, que tem também o seu campo autônomo de ação, estamos criando combinações de paradigmas e práticas que, na maioria das vezes, são contraditórios. Na acupuntura, a intervenção é orientada pelo princípio vitalista, em que são realizados estímulos no organismo para que esse retome sua mais ampla capacidade de produção, busque seu caminho de auto-regulação. O corpo é o corpo energético com suas redes funcionais, infinitas conexões e vias de comunicação. Os sistemas (órgãos e vísceras) expressam manifestações do humano como a produção de humores, vapores, estados do ser, tanto mais sutis como densos. A avaliação do estado atual da pessoa é realizada através de perguntas que relatam a sua vida, nos mais minuciosos detalhes.

Além disso, sinais que se expressam no pulso e na língua, afirmam a concepção do humano como uma unidade heterogenea e rica na sua capacidade de comunicação interna. O que ocorre numa determinada região, ou sistema, é sabido pela unidade. Combinar a teoria e a prática da acupuntura, ou os outros recursos que compõem a medicina chinesa, com outros saberes, de outras racionalidades médicas, no mesmo tratamento, tende a descaracterizar e enfraquecer o procedimento da acupuntura. Não podemos pensar pela lógica que orienta a nossa sociedade de consumo, que afirma, constantemente, a máxima: “quanto mais, melhor”. Essa lógica irá resultar em procedimentos híbridos, que poderão gerar outros transtornos, levando o organismo a um trabalho desgastante de metabolizar estímulos, substâncias tóxicas e procedimentos díspares. Não estamos afirmando com isso que a acupuntura é capaz de tudo sozinha. Sabemos dos limites do humano na busca de bem-estar, em meio ao contemporâneo que produz doenças. Estamos problematizando combinações de princípios distintos que levam, muitas vezes, ao descrédito da capacidade de ação do organismo, imputando-o ineficácia e incapacidade de auto-regulação e que, nesse sentido, tendem a utilizar intervenções agressivas e inadequadas, estranhas à sua natureza. Vimos anteriormente como alguns pensadores constroem conceitos que em muito se assemelham a aspectos referentes aos conceitos taoístas, no entanto, esses pensadores e os seus conceitos, não são predominantes na construção de mundo e, principalmente da ciência ocidental, que sustenta a biomedicina. Poderíamos até dizer que esses se constituem mais como “linhas de fuga” a um tipo de pensamento científico e hegemônico no ocidente. Na biomedicina praticada atualmente, marcada por um caráter agressivo, invasivo e intervencionista, via de regra, o ponto de partida é a supressão dos sintomas a qualquer custo, oposto ao pensamento da medicina chinesa, que parte dos sintomas para compreender mundo e humano. Portanto, praticar a medicina chinesa, utilizar os seus recursos, pressupõe uma coerência com os seus princípios, e com a utilização do conteúdo que a torna uma racionalidade própria e autônoma.

ACUPUNTURA E A POLÍTICA DE SAÚDE


Esse inconsciente que se supõe existir no coração de cada indivíduo, e ao qual, entretanto, nos referimos a respeito de tudo – neuroses, psicoses, vida cotidiana, arte política, etc. – seria, então, essencialmente um assunto de especialistas. E o que há de espantoso nisso? Atualmente, muitas coisas que, antes, pareciam pertencer ao domínio comum para o todo e sempre, aos poucos acabam caindo nas mãos de especialistas. A água, o ar, a energia, a arte estão em vias de se tornarem propriedades privadas. (Guattari)

Outro aspecto a ser realçado na medicina chinesa, no que se refere aos seus recursos terapêuticos, que compõem esse campo próprio, como citamos anteriormente, é o fato da acupuntura, na nossa sociedade, ser o recurso da medicina chinesa mais difundido, procurado e utilizado, como se fosse a “menina dos olhos” da medicina chinesa. O que leva a essa priorização da sua prática em detrimento aos outros recursos da medicina chinesa? Será que podemos pensar que essa priorização reflete a lógica que orienta o nosso sistema de saúde, público e privado? Nessa lógica, que com certa lástima constatamos que a acupuntura vem sendo cooptada; o importante é a conhecida relação de produção/consumo gerando lucro e dependência. A criação de uma política de saúde centrada na dependência aos profissionais de saúde é notória, em detrimento a uma política de saúde que de fato invista verdadeiramente na promoção da saúde, na prevenção das doenças e na autonomia, na libertação do ser. Pensemos na infinidade de terapias, tratamentos, especialistas, e um aparato imensurável que vem a ser considerado como o setor ou o campo da saúde. Qual o principal, e muitas vezes único objetivo de tudo isso, na lógica capitalista que vivemos, senão o lucro.

“Trata-se de demonstrar que somente a ação política e jurídica pode deter essa calamidade pública contagiosa que é a invasão da medicina, quer se manifeste como forma de dependência pessoal quer apareça como medicalização da sociedade” (Illich).

Isso mesmo, o lucro! Obter o máximo possível através da venda e consumo de bens e serviços ligados ao setor de saúde. Nessa organização social, onde em todos os setores o lucro é o principal objetivo, cada dia mais a acupuntura se desenvolve. A lógica é a da dependência, na velha relação médico/paciente, analista/analisando, acupunturista/paciente. Sabemos que nos seus pressupostos de construção, a acupuntura e a medicina chinesa, trabalham fundamentalmente com um enfoque na promoção da saúde e na prevenção das doenças. E que isso se faz através de processos que vislumbram a socialização do saber, o compartilhar de conhecimentos que levem o humano a apoderar-se de si, ao cuidado de si. Em última instância, à liberdade. Talvez, no contemporâneo, tenhamos naturalizado essa relação dos especialistas ao ponto de não nos questionarmos mais sobre outras formas de atendimento à saúde. Se a ênfase é na promoção e na prevenção, porque não utilizarmos, de forma coerente e efetiva, a educação, a informação, a socialização do saber para esse fim? A orientação alimentar, os exercícios energéticos, incluindo práticas de meditação, deveriam se constituir no carro chefe da medicina chinesa praticada no ocidente. Esses, além de mais efetivos nos processos de transformação do ser, devido à possibilidade cotidiana de utilização, são facilitadores da libertação do humano, pois engendram autonomia em relação aos especialistas, aos tratamentos sem fim, ao consumo de terapias tão difundido na nossa sociedade. Alimentar-se de forma mais compatível com a nossa natureza e as nossas necessidades é um processo de promoção de saúde. Fazer exercícios adequados à natureza de cada um, assim como práticas de meditação que promovam, no primeiro momento, uma redução da intensidade desmesurada de fluxos (stress), e, avançando mais, a um encontro consigo e com a natureza plena em nós, são práticas possíveis de serem utilizadas sem a necessidade de especialistas. Na china, que sempre foi um país de um enorme contingente populacional não era inteligente, e mesmo possível, adotar um sistema de saúde orientado para o consumo de bens, serviços e especialistas em saúde. Nesse sentido, pensamos que não só a acupuntura, mas qualquer tratamento ou terapia deveria ter como ponto de partida a libertação do ser, a facilitação do indivíduo na conquista da potência de agir, que se expressa na autonomia para gerir a sua vida e a sua saúde. Devemos então fugir às discussões ingênuas que tendem a estigmatizar esse ou aquele tratamento. Não cabe mais a ideia moralista, revestida de um purismo inadequado por parte dos praticantes da acupuntura sobre esse ou aquele tratamento, essa ou aquela técnica, boa ou má, mas sim, sabermos se a forma como essas são utilizadas, pelos profissionais de saúde, sinalizam, efetivamente, verdadeiramente, para processos de libertação ou de dependência. Todos os tratamentos são adequados, quando visam à libertação e a autonomia possíveis, e são inadequados, quando geram dependência desnecessária. Pensar sobre esses aspectos da medicina chinesa, em meio ao contemporâneo, é pensar numa política de saúde diferenciada, transformadora e até revolucionária, onde o interesse do cidadão esteja de fato em primeiro lugar. Para o educador Paulo Freire, no texto Educação Emancipadora, podemos ler: “Em tempos de garantir ao cidadão o direito aos bens sociais garantidos pela constituição como Saúde e Educação estamos criando doentes consumistas e não emancipados e com autonomia para gerir seu próprio saber saúde”. Sabemos que a acupuntura, articulada com os outros recursos da medicina chinesa, pode se constituir num poderoso instrumento de construção de uma visão de saúde diferente do que conhecemos na atualidade. Uma visão de saúde que produza autonomia, diante de um mundo que se esmera na produção de doenças e no consumo de especialistas. Constatamos, com certa preocupação, que a acupuntura, como anteriormente citado, vem se integrando com muita facilidade nesse modelo de saúde perverso, praticado no nosso país. A sua prática, cada vez mais procurada por profissionais de saúde, é motivo de brigas corporativas infindáveis. São disputas de mercado que transformam a acupuntura em mais uma técnica eficaz na administração de doenças, e na produção de especialistas.

Será que não estamos deixando de construir linhas de fuga necessárias nesse mundo dominado pela lógica do capital?

O ENCONTRO/DESENCONTRO INEVITÁVEL DAS CULTURAS


“Que curiosa confusão, a do vazio com a falta. Falta-nos de fato uma partícula de Oriente, um grão de Zen” (Deleuze).

Quando utilizamos termos da medicina chinesa como, por exemplo, estagnação de Xue/Sangue no sistema Gan/Fígado e todas as possíveis consequências desses acontecimentos, para cada pessoa, como; intensidade, tempo de estagnação, idade do paciente e tantas outras características que fazem desta estagnação um dado completamente singular, estamos no campo autônomo da medicina chinesa. Quando é utilizada a denominação da biomedicina para nomear os sintomas, como dores no hipocôndrio, hepatite ou hepatomegalia, estamos no campo das entidades fixas que, entre outros aspectos, reduzem a capacidade de desenvolver uma reflexão sobre o que uma estagnação de Xue/Sangue no Gan/Fígado pode se desdobrar, a cada momento. Assim, é importante, no momento seguinte onde estaremos pensando a lógica de produção orgânica dos sistemas Zang Fu, pensar como esses processos de transformação ocorrem. Não nos parece suficiente saber, como na critica que estamos fazendo às meras representações, que o Shen/Rim tem relação com o medo ou a coragem, assim como saber que o Gan/Fígado expressa a raiva e a agressividade, e assim, sucessivamente, sem pensarmos a lógica processual dessas manifestações. Ou seja, o que ocorre até o Shen/Rim produzir um tipo de manifestação conhecida no ocidente como medo? Qual o percurso interno que sugere esse desdobramento?Voltamos aqui à questão de pensarmos naquilo que é por natureza e no que vem a ser por convenção. No caso do Shen/Rim, que utilizaremos como exemplo, buscaremos sugerir o que ocorre, dentro dessa lógica processual, com os outros sistemas. Podemos pensar que o medo, e mesmo qualquer outro tipo de manifestação orgânica conhecida como emoção, sentimento, é um dado real, proveniente de uma produção orgânica, e que recebeu esse nome como poderia receber qualquer outra denominação que não alteraria a manifestação da produção em si. Medo ou raiva são códigos que tentam expressar manifestações do ser. Queremos dizer que essas denominações tentam expressar uma manifestação orgânica real, compreendida desde tempos imemoriais, ou seja, desde o primeiro humano que já se conhecia o que hoje é denominado de medo ou raiva. Seguindo esse percurso, queremos dizer que, no encontro com aspectos externos e internos, o humano vai sendo afetado e manifestando essas afetações de várias maneiras. Conforme a característica constitucional de cada pessoa, sua ancestralidade, que se expressa no Jing, sua infância, educação, formação, convívio familiar, social e inúmeros atravessamentos que constituem provisoriamente essa pessoa, ela poderá apresentar certas tendências ou vulnerabilidades em determinados sistemas internos (Zang/Fu) ou e externos (Jing Luo). Numa determinada pessoa, caso isso ocorra no sistema Shen/Rim, e sabendo das atribuições funcionais desse sistema, teremos manifestações de possível desgaste do Jing/Essência, o que poderá acarretar certas manifestações. Podemos identificar então expressões como o enfraquecimento da estrutura óssea, a redução da vitalidade, da potência sexual e reprodutiva, pois a essência mais densa da vida, ali armazenada e posta em circulação, é fundamental nesses aspectos. As manifestações mais sutis, relativas a cada sistema, emanam, como vapores, do processo de produção contínua do sistema, e que, mesmo sutil, mantém uma relação condicionada pelas características do sistema, ou seja, cada sistema produz certo padrão humoral, certo “hálito” próprio, com as respectivas variações, assim como um tipo específico de produção mais densa, também com variações, mas flutuando dentro de certos platôs. No caso sutil, são vapores que emanam dos processos de transformação contínuos da matéria densa pelo organismo inteiro, e especificamente pelos órgãos e vísceras. A produção/liberação de humores, no nosso exemplo do Shen/Rim, iria produzir também um “estado de espírito”, ou sentimento, algo sensível, associado ao sistema que está sendo mais afetado. Então, sentimentos atualmente denominados de medo, raiva, tristeza são manifestações humorais correspondentes ao padrão de atuação de cada sistema, e que são produzidas pelos sistemas, no âmbito sensível. São encontros que fortalecem ou enfraquecem o organismo, são afecções que alteram o grau de potência de cada corpo, constantemente. Poderíamos, para finalizar, dizer que Gan/Fígado, Shen/Rim, Pi/Baço e todos os sistemas, produzem e liberam humores, vapores sensíveis, mutáveis, com variações permanentes de intensidade, e que são atualmente denominados de emoções. O que estamos querendo dizer é que tanto o que se conhece atualmente como emoções, assim como suas várias formas de apresentação, com variações de intensidade, e que são denominadas de medo, raiva, tristeza, melancolia e um incontável número de tipificações, para a medicina chinesa, são humores, vapores produzidos e liberados pelo corpo via sistemas Zang Fu (órgãos e vísceras). Em última instância, são expressões de mais intensidade de fluxos ou menor intensidade de fluxos, são expressões mais yin ou mais yang.

VITALISMO – O PRINCÍPIO ORIENTADOR


“Não é mais um Eu que sente, age e se lembra, é ‘uma bruma brilhante, um vapor amarelo e sombrio’ que tem afetos e experimenta movimentos, velocidades” (Deleuze).
O vitalismo ou a potência vital são fluxos e forças que atravessam e vincula humano e natureza. O vitalismo expressa a potência impessoal da natureza. É a potência da natureza que, nas suas dobras, engendra vida nos modos existentes, sendo o humano mais um deles. Esse princípio norteador de certas práticas na área da saúde, entre elas a acupuntura, pode ser pensado como o grau de potência singular que habita o humano e que é responsável pela capacidade de resposta aos estímulos produzidos pela acupuntura, para ficarmos no nosso exemplo. Pode ser pensado também, dentro da linha dos biólogos Maturana e Varela, como o princípio da autopoiese, ou seja, a capacidade inata de cada ser vivo de auto-regulação, de se auto-engendrar. É o fogo da vida. Vitalismo e potência são constitutivos de mundo, da natureza e do humano, que afirmam a inseparabilidade desses. Na visão da medicina chinesa, o humano se constitui predominantemente de coisas que ela veio chamar de jing/essência, qi/sopro vital e shen/inteligência, que, de forma inseparável e, até mesmo indiscernível, são as substâncias, principais, mas não únicas, que constituem o humano. Produzir, mobilizar, disponibilizar energia para o fortalecimento dessa vitalidade, da potência de vida, deve ser o princípio orientador de quem trabalha com acupuntura. Os processos de transformações promovidos pela acupuntura passam, inevitavelmente, por estímulos que levam o organismo a empreender a sua própria auto-regulação, buscando caminhos de expressão do ser mais compatíveis com a sua natureza. Através da combinação adequada de pontos, para cada pessoa, em cada tratamento, a cada momento, criamos um procedimento que facilita o organismo a aumentar o seu grau de potência. Nesse sentido, disponibiliza energia do próprio organismo para que esse busque a construção de padrões que fortaleçam o seu melhor ritmo de produção. Quando os sistemas entram na via da harmonização, a partir dos estímulos que foram realizados, uma série de manifestações de expressão desarmônicas do ser, conhecidas como sintomas ou doenças, se transformam, adquirem outras configurações. Nesse sentido, entendemos que quem efetivamente promove as transformações buscando outros padrões de regulação é o próprio organismo, assim como a pessoa, no seu cotidiano, nos encontros que realiza, cabendo ao acupunturista, no máximo, promover estímulos adequados a cada caso e que sejam facilitadores da autopoiese.

O SUJEITO DA MEDICINA CHINESA


Quando estamos falando de um sujeito da medicina chinesa estamos querendo definir, até onde isso é possível, como se compõem esse sujeito, como se organiza o sujeito, dentro de uma concepção própria da medicina chinesa. Quando estamos pensando ou trabalhando com essa abordagem, como podemos compreender os aspectos fundamentais e constitutivos do sujeito, do paciente, e, em última instância, das pessoas. Partindo do princípio de impermanência podemos pensar nesse sujeito composto, provisoriamente, por linhas. Um sujeito, portanto, sempre em agenciamentos coletivos, índice de inacabamento. Um sujeito composto por muitos outros indivíduos, corpos complexos, uma verdadeira multidão. Poderíamos falar de algumas linhas, fluxos ou tendências de constituição energética, quem numa combinatória sempre única e singular, se orientam sob alguma forma de organização. Iremos utilizar alguns termos para dizer dessas formas e mais ainda, para dizer dessas funções constitutivas do ser, mas que serão termos que, como ao longo do trabalho temos afirmado, servem mais como dispositivos de análises que ensejam um pensamento criativo e uma produção com o que os termos sugerem do que uma fixação nos termos em si. Ou seja, não importa muito os termos, mas sim aquilo que eles estão se referindo, nesse caso, na constituição energética do humano. Assim como tem uma história budista que diz que os homens ficam, por vezes, mais preocupados em localizar, identificar o dedo que aponta para a lua, mais do que efetivamente olharem para a própria lua. Então, na sugestão de pensarmos nessa teia energética que constitui o humano, vamos indicar algumas formas principais que são adotadas para avançarmos com entendimento de suas formas/funções, deixando claro que a origem de qualquer energia, substância, coisa, será sempre a potência única, produtiva e criadora. Energia Ancestral ou Jing Qi; Energia de Sustentação ou Yong Qi; Energia Defensiva ou Wei Qi; Energia de Transformação e Energia Perversa. Na Energia Ancestral temos componentes sutis que atravessam a materialidade carreando algo que serve para imprimir certas combinações de matizes. É uma expressão da energia única, constitutiva de mundo, e que, nas suas formas de expressão assume infinitas funções. A Energia Ancestral pode ser pensada como a combinação de aspectos que dizem respeito à ancestralidade individual. Componentes, sutis e densos, herdados de pai e mãe, e de uma ancestralidade que os transbordam, irão participar da combinação orgânica do ser influenciando na sua capacidade de defesa, sua força vital, sua expressão no mundo, sua constituição física e em inúmeros outros aspectos de difícil identificação. Na Energia de Sustentação temos aquilo que é extraído dos nutrientes e que servirá de combustível para nossas ações no mundo. A sustentação é feita em todos os sentidos. Tanto sustentação do corpo como a sustentação mais sutil, também ligado ao corpo, mas com uma expressão mais no que conhecemos como campo emocional. A Energia Defensiva é aquela expressão energética que, estimulada, mantêm o organismo alerta com relação aos fatores que podem causar desarmonias nos ritmos internos. A Energia Defensiva é um importante meio de avaliação da força vital daquele organismo. A capacidade de recuperação, reorganização, são determinadas por um conjunto de fatores, capitaneados pelo que se convencionou chamar de Energia Defensiva. É um conjunto protetor do corpo, composto por várias substâncias, que pode ser estimuladas para aumentar a sua produção e, consequentemente fortalecer o organismo, mantê-lo mais produtivo. Energia de Transformação pode ser compreendida como o aspecto da energia única, como falamos anteriormente, que, quando estimulado, produz modificações nos padrões de funcionamento orgânico. É a Energia prioritariamente utilizada na medicina chinesa que, pela sua constituição, permite ao próprio corpo esculpir padrões de circulação mais compatíveis com a sua capacidade produtiva. A Energia Perversa é aquilo que chamamos de mal encontro. É aquilo que, para cada um, a cada momento, poderá desorganizar ritmos produtivos, gerando despotencialização. Não utilizamos a ideia de Energia Perversa de forma universal, mas sim com a ideia de um corpo que, ao encontrar com o outro corpo, o despotencializa. E isso varia quase que num plano infinito. O que, em dado momento pode se constituir num mal encontro, para certa pessoa, para outra, não produz o mesmo efeito, portanto não pensamos em algo que é perverso a priori, mas sim, a partir dessa relação de encontros. O frio, calor, umidade, secura podem se constituir em Energia Perversa dependendo do outro corpo que realiza o encontro, e assim com relação a qualquer corpo que produza despotencialização. Portanto, não temos como definir quais os tipos de Energia podem se constituir em Perversa. Algo que era perverso em algum momento, pode deixar de ser, em outro momento. Algo que é perverso para certa pessoa, pode não ser para outra. Então podemos definir a Energia Perversa como tudo aquilo que despotencializa a pessoa.

O PROCESSO DE AVALIAÇÃO NA ACUPUNTURA


“Substituir a anamnese pelo esquecimento, a interpretação pela experimentação” (Deleuze, 1996, p.11).

Na China, a avaliação dos pacientes assumia contornos totalmente distintos da forma atual, o que a rigor não causa nenhuma surpresa. Hoje em dia, e principalmente no Ocidente, a investigação de aspectos que influenciam o humano nos verbos da vida, como vem sendo construído por algumas linhas da psicologia, filosofia, antropologia, biologia e física, para mencionarmos algumas áreas do saber, faz com que a avaliação adquira contornos mais amplos na capacidade de leitura dos sinais apresentados, dentro do contexto de vida atual de cada um. Como conciliar os princípios da Medicina Chinesa com algumas aquisições do saber Ocidental sem atravessarmos paradigmas distintos? A esse desafio pensamos que, no limite, se tomarmos a orientação daquilo que é por natureza e não por convenção poderemos, sem nenhum ecletismo, dinamizar processos de conhecer as manifestações do humano, sempre inseparável de mundo. No contemporâneo, sabemos que as combinações de fatores que acarretam estados de cristalizações ou intensificações de fluxos, chamados comumente de desarmonias, são distintas e múltiplas, gerando expressões do ser, infinitas e inapreensíveis, na sua totalidade. Sabemos que na China, em tempos imemoriais, as pessoas que cuidavam da saúde dos membros da comunidade onde viviam, mantinham um convívio cotidiano com seus pares. Conheciam a ancestralidade, a história de infância, enfermidades predominantes, capacidade de trabalho, habilidades, deficiências, humores, dieta, o jing, o qi e o shen dos moradores da comunidade. Dessa forma, o processo de avaliação era realizado na observação cotidiana da vida das pessoas, ou seja, era efetivamente um processo e não apenas um momento, como nos tempos de agora. Atualmente, e na imensa maioria dos casos, o que ocorre é que o paciente vai ao consultório do acupunturista uma ou duas vezes por semana, durante aproximadamente uma hora, fala das suas questões, de forma mecânica e superficial, desconhecendo, o seu organismo, desconhecendo a si próprio. Neste espaço de tempo, o acupunturista, além de avaliar o relato do paciente, tem que verificar a língua, o pulso, estabelecer um procedimento terapêutico, realizar o procedimento e, ainda, sugerir uma série de medidas a serem utilizadas na vida diária. Em muitos casos, é importante mais tempo de relato, mais familiaridade com o pulso, a língua e a vida da pessoa. A avaliação deve ser um processo, um continuum que se constrói a cada encontro. Não estamos trabalhando com uma técnica moderna, aliás, não estamos trabalhando com uma técnica, mas com indivíduos e recursos facilitadores do encontro consigo e do fortalecimento da potência do ser. A partir da dor e do sofrimento, somos convocados a cuidar do outro, auxiliando o organismo a encontrar o seu melhor modo de estar na vida. Ouvir e interpretar os sintomas de desarmonia apresentados; contextualizá-los sem pressa ou necessidade de suprimi-los. Observá-los como sinalizações para a compreensão das manifestações do ser que, em muitos casos, somente a própria pessoa terá a possibilidade de transformar. Estar atento a essas situações e deixar-se orientar pelo conjunto razão/sensibilidade/intuição, pode levar a um bom encontro entre paciente/acupunturista.

Aspectos importantes para a Avaliação.

O olhar deve levar sempre em consideração a predominância de expressões mais yin ou mais yang. É importante identificar manifestações intensivas, aceleradas, quentes, agitadas, externas, imateriais que caracterizam uma intensificação de fluxos ou, numa outra via, se a predominância é de manifestações lentas, frias, internas, densas e materializadas. Identificar quais as combinações que se apresentam no momento. Cada pessoa tem o seu ritmo de falar, movimentar, reagir, e precisa ser compreendida através de uma leitura sensível dos aspectos manifestos e traduzida para a linguagem da predominância yin e yang. Escutar sem criar fixações iniciais nesse ou naquele sintoma, percebendo o máximo possível o que se apresenta no momento do encontro, estar atento ao relato e a sua expressão mais profunda, em silêncio e plena atenção. Estar atenciosamente disponível para compreender o universo particular da pessoa, seus desejos, sonhos, realizações, frustrações, ressentimentos, sofrimento, linhas de fuga e a forma como ela lida com essas situações. Dentro desse contexto, estar atento para o ritmo e a intensidade das pulsões, preferências, tendências, habilidades, deficiências, tudo dentro de uma perspectiva mais yin ou mais yang. Observações importantes como verificar manifestações de calor ou frio, secura ou umidade, superfície ou interior, fazem parte do processo de avaliação. Apreender esse estado leva-nos a compreender qual deve ser o ritmo de trabalho, buscando facilitar o organismo, a potência vital a nutrir o aspecto deficiente e ajustar os excessos inadequados.

A Tranquilidade e a Atenção na Escuta.

A preocupação desmesurada em definir qual o sistema a ser tratado, os pontos a serem utilizados e outros aspectos do procedimento terapêutico, por vezes, pode comprometer a atenção necessária na avaliação do paciente. A escuta deve ser a mais atenta possível, olho no olho, coração no coração. Após esse momento, inicia-se a elaboração das informações obtidas, articulando intuição e sensibilidade, para interpretar o relato. Para isso, a sugestão é de seguir sempre a visão da singularidade na elaboração do procedimento, isso significa dizer que o procedimento será construído a partir desses dados elaborados. Ou seja, sem estar baseado em esquemas prontos que não levam em consideração as infinitas peculiaridades e complexidades de cada pessoa, a cada momento. Trabalhar com o que se expressa no momento do encontro, sem ficar preocupado com modelos, comparações ou referências anteriores. Então, após o exame de pulso e língua, articular as informações e construir o procedimento a ser utilizado naquele encontro.